História

A primeira mergulhadora da história

A lendária história de uma mergulhadora nas Guerras Persas, no século V a.C. — um dos primeiros registros ocidentais a ligar o mergulho a atos de coragem.

por Equipe Búzios Divers14 de junho de 20256 min de leitura
Mergulhador fazendo o sinal de OK atrás de um coral em leque

Muito antes de qualquer certificação ou equipamento de mergulho, a história já registrava atos de coragem debaixo d'água — e uma das histórias mais antigas e intrigantes do mergulho envolve, ao lado de seu pai, uma mulher que teria arriscado a vida em plena Guerra Greco-Pérsica, no século V a.C.

O relato mais conhecido vem do historiador grego Heródoto, que, em sua obra 'Histórias', conta a história de Scyllias, um mergulhador da cidade de Scione a serviço da frota persa de Xerxes. Segundo Heródoto, Scyllias desertou para o lado grego pouco antes da Batalha de Artemísio, em 480 a.C., supostamente nadando uma longa distância debaixo d'água para escapar — embora o próprio historiador admita ter dúvidas sobre a veracidade da proeza, sugerindo que Scyllias possa ter chegado de barco e apenas alegado ter nadado.

Séculos depois, o geógrafo Pausânias acrescentou outro capítulo à história: segundo ele, Scyllias tinha uma filha chamada Hidna, também uma mergulhadora habilidosa, que o acompanhou em uma missão ainda mais ousada — mergulhar durante uma tempestade para cortar as amarras de navios persas ancorados perto do Monte Pélion, contribuindo para afundar parte da frota inimiga. Como reconhecimento, pai e filha teriam recebido estátuas no santuário de Delfos, erguidas pela liga anfictiônica grega.

Vale destacar que essa é uma história antiga, contada por fontes que já misturavam fato e lenda, e que atravessou séculos de recontagens — inclusive em versões mais populares, nas quais a filha de Scyllias aparece com nomes diferentes, como 'Cyana'. Historiadores modernos debatem até que ponto os detalhes específicos (a distância nadada, a autoria exata da sabotagem) são precisos, mas há razoável consenso de que mergulhadores — e, segundo Pausânias, também mergulhadoras — foram de fato usados em operações militares na Grécia Antiga.

O que é tecnicamente bem documentado é a existência dessa prática: no século V a.C., mergulhadores gregos já usavam juncos ocos como uma espécie de snorkel rudimentar e eram capazes de realizar mergulhos livres relativamente profundos para recuperar tesouros afundados, reparar cascos de navios e, como no caso de Scyllias e Hidna, sabotar embarcações inimigas em tempos de guerra. Esse tipo de mergulho militar e de recuperação de destroços era uma habilidade real e valorizada na Antiguidade.

Independentemente dos detalhes exatos da lenda de Hidna, a ideia de mulheres mergulhando profissionalmente não é isolada na história antiga: no Japão, a tradição das mergulhadoras 'ama', mulheres que mergulham em apneia para coletar pérolas, ostras e frutos do mar, é documentada há mais de dois mil anos e segue viva, de forma reduzida, até hoje.

Seja qual for o nome correto por trás da lenda, a história de uma mergulhadora corajosa nas Guerras Persas continua sendo um dos primeiros registros ocidentais a associar o mergulho a atos de bravura — um lembrete de que a relação humana com as profundezas do oceano é, há milênios, também uma história de coragem.