História

A história do mergulho

Dos primeiros mergulhadores em apneia aos sinos de mergulho, capacetes e o Aqualung de 1943 — a jornada de séculos que deu origem ao mergulho autônomo moderno.

por Filipe Barretto01 de maio de 20257 min de leitura
Mergulhador nadando ao lado de duas tartarugas marinhas

A história do mergulho começa muito antes de qualquer cilindro ou regulador: começa com povos antigos que prendiam a respiração para buscar alimento no fundo do mar. Da coleta de pérolas e esponjas às primeiras tentativas de respirar debaixo d'água com engenhocas improvisadas, a busca humana por explorar o oceano é antiga — e cada avanço técnico, ao longo de séculos, aproximou um pouco mais o mergulho da atividade acessível que conhecemos hoje.

Muito antes de qualquer equipamento, o mergulho livre já era uma habilidade dominada por comunidades inteiras. As mergulhadoras 'ama', no Japão, e as 'haenyeo', na Coreia, mergulham em apneia para coletar frutos do mar há séculos, uma tradição que persiste, de forma reduzida, até os dias de hoje. Essas tradições mostram que, muito antes de qualquer tecnologia, o corpo humano já era treinado para tolerar pressão, frio e apneia prolongada.

Entre os séculos XVI e XVII, a busca por prolongar o tempo debaixo d'água levou à criação dos primeiros sinos de mergulho. Em 1535, o italiano Guglielmo de Lorena construiu um sino que aprisionava uma bolha de ar, permitindo que mergulhadores explorassem destroços de naufrágios por mais tempo do que jamais tinha sido possível. Já em 1690, o astrônomo inglês Edmond Halley aperfeiçoou o conceito com um sistema de barris pressurizados que renovava o ar dentro do sino, possibilitando mergulhos de várias horas.

No início do século XIX, o engenheiro de origem alemã radicado em Londres Augustus Siebe deu um passo decisivo ao desenvolver, entre as décadas de 1830 e 1840, o chamado 'traje de mergulho padrão' — um capacete de metal selado a uma roupa impermeável, alimentado por ar bombeado da superfície. O design de Siebe se tornou o padrão da indústria por mais de um século, usado em obras portuárias, resgates e recuperação de naufrágios ao redor do mundo.

Em 1878, o engenheiro inglês Henry Fleuss deu outro passo importante ao criar um dos primeiros rebreathers funcionais — um equipamento que reciclava o próprio ar exalado pelo mergulhador, removendo o gás carbônico e permitindo mergulhos sem a dependência de mangueiras conectadas à superfície. O invento foi usado, entre outras coisas, para resgates em túneis alagados, e décadas depois inspiraria os rebreathers militares usados na Segunda Guerra Mundial.

O verdadeiro divisor de águas, porém, veio em 1943, em plena Segunda Guerra Mundial: o oficial da marinha francesa Jacques Cousteau e o engenheiro Émile Gagnan desenvolveram o Aqualung, um regulador de demanda que liberava ar comprimido apenas quando o mergulhador inspirava. Pela primeira vez, um mergulhador podia carregar seu próprio suprimento de ar nas costas e nadar livremente, sem capacete, sem mangueira e sem depender da superfície — nascia ali o mergulho autônomo (scuba) como conhecemos.

Depois do Aqualung, o mergulho recreativo se espalhou rapidamente pelo mundo, acompanhado pela criação de certificadoras, cursos estruturados e equipamentos cada vez mais seguros — de coletes equilibradores a computadores de mergulho. Hoje, mais de oito décadas depois daquele avanço na França ocupada, milhões de pessoas mergulham recreativamente todos os anos, incluindo aqui em Búzios, um dos destinos mais procurados do Brasil.